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Vacina Contra HPV – Parte 1


Por Maria Ignez Saito*

Desafios e reflexões

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Da mesma forma que a sífilis e, posteriormente, a Aids, que ocuparam e ainda ocupam lugar de destaque entre os agravos relacionados às DST, atualmente, juntam-se a eles aqueles causadas pelo Papiloma vírus humano (HPV), motivando discussão e pesquisas para sua erradicação.

Quem é o HPV

Ao longo das últimas décadas, diversas linhas de pesquisa convergiram para a identificação do HPV como agente causador do câncer do colo do útero. Atualmente, são conhecidos mais de 100 tipos de HPV, dos quais 30 a 40 afetam as regiões ano-genitais sendo 15 a 20 classificados como cancerígenos.

Os tipos do HPV 16 (54%) e 18 (16%) são responsáveis por aproximadamente 70% dos cânceres de colo do útero, vagina e ânus e de cerca de 30% a 40% dos cânceres de vulva, pênis e orofaringe, e 6 e o 11 são responsáveis por 90% das etiologias das verrugas genitais.

Vacinação contra o HPV

As vacinas são consideradas um dos mais importantes avanços da Medicina, sendo responsáveis pela diminuição e até erradicação de diversas doenças. A vacina quadrivalente contra HPV é muito eficaz, ou seja, é capaz de induzir grandes quantidades de anticorpos específicos. Enquanto em outras vacinas se atingem níveis de anticorpos inferiores ou, no máximo, próximo àqueles induzidos pela infecção natural, na vacina contra HPV os títulos de anticorpos são muito maiores do que os da dita infecção.

Estudos a longo prazo sugerem que a vacina oferece proteção duradoura, pois não se observou falha vacinal em pessoas que a receberam após 8,5 anos de seguimento, mesmo quando os anticorpos não eram mais detectáveis.

É importante ressaltar que este é um produto resultante de engenharia genética, pois não leva DNA viral em sua composição, o que diminui muito a possibilidade de efeitos adversos.

Estamos, nesse momento, vivenciando mais uma conquista relevante de prevenção, com a inserção da vacina quadrivalente contra HPV no calendário oficial do Ministério da Saúde, que contemplará a partir de março de 2014 adolescentes do sexo feminino de 11 a 13 anos e em 2015 crianças e adolescentes femininas entre 9 e 11 anos, que tem como objetivo principal a prevenção do colo de útero e verrugas genitais.

Infecção pelo HPV e câncer de colo uterino: uma minoria?

É correto afirmar que nem toda a infecção pelo HPV provoca câncer. Outros fatores como idade de início da atividade sexual, número de parceiros, passado sexual do parceiro (mesmo que único), imunossupressão, tabagismo, uso de anticoncepcionais orais (principalmente por longo tempo), ausência de preservativo (até mesmo seu uso correto vai diminuir, mas não impedir a infecção pelo HPV, que é um vírus de contato) e alguns aspectos ligados à nutrição podem influenciar o aparecimento do câncer.

O que se discute é o conceito estatístico “minoria”. O HPV é a DST mais comum, portanto a “minoria” é traduzida, no caso do câncer de colo de útero, por 530 mil novos casos/ano. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o câncer de colo de útero é o terceiro tipo de câncer mais frequente no mundo, subindo para a segunda posição quando se trata de mulheres em idade reprodutiva (15-44 anos). Só no Brasil são aproximadamente 18 mil novos casos/ano com 5 mil mortes.

É fundamental que, quando se trata de HPV, o nosso raciocínio não fique vinculado apenas ao câncer de colo uterino, pois, os tipos encontrados na vacina 16 e 18 são responsáveis também por câncer de vulva e vagina, ânus, pênis e, atualmente, orofaringe. É ainda extremamente importante considerar a relevância das chamadas verrugas genitais com uma média de 1,9 milhões de casos/ano no território nacional e duração média de 125 dias em cada episódio de verruga, altamente infectantes e recidivantes, que podem ser de difícil tratamento e provocar não só agravos físicos como psicológicos.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou a vacina quadrivalente contra HPV (conhecida internacionalmente como Gardasil) para prevenção de câncer anal em homens e mulheres de 9 a 26 anos.

A infecção por HPV 16 e 18 está ligada a 93% dos casos de câncer anal em homens e mulheres. Apesar de ser considerado um câncer não muito comum (1,5 caso a cada 100 mil pessoas), o câncer anal é condição preocupante, pois tem crescido entre homens e mulheres e só perde para o aumento dos casos de câncer na cabeça e pescoço. Estimativas dos registros de câncer dos Estados Unidos mostram taxa de crescimento de 2% ao ano. Na população geral, o câncer anal é mais frequente nas mulheres que em homens.

Principalmente para os pediatras, a preocupação inclui a papilomatose respiratória, patologia extremamente grave, que exige intervenções cirúrgicas constantes por suas recidivas frequentes que podem levar até a morte. Acreditava-se que a papilomatose era originária da contaminação pelo canal de parto; hoje se sabe que já existe contaminação pelo líquido amniótico e até por contatos em ambientes contaminados de sala de parto. A papilomatose respiratória, apesar de ser considerada doença benigna, pode desempenhar possível papel nos cânceres do pescoço e da cabeça.

 

*Maria Ignez Saito é Profª. Livre-docente pelo Depto. de Pediatria da FMUSP, Presidente do Depto. de Adolescência da SPSP, Membro da Comissão Científica do Programa de Saúde do Adolescente – Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

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