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Os animais e as crises de alergia


da redação

Muitas podem ser as causas da alergia, portanto, não culpe o bichinho sem uma avaliação médica criteriosa

Dificuldade para respirar, espirros incessantes e coceiras são alguns dos sintomas que podem indicar que a convivência entre o animal de estimação e seu filho ia muito bem até a chegada de uma alergia. “Cuidado apenas para não radicalizar e, ao primeiro espirro, culpar o animal, pondera doutor Pedro Takanori”, infectologista pediátrico.

Os sintomas alérgicos podem se confundir com quadros gripais de repetição, muito frequentes nos pequenos. Por isso, na dúvida, visite o pediatra para que ele investigue o histórico de alergia da criança e da família. Assim, se julgar necessário, fará testes de alergia para constatar ou descartar o problema”, pondera Antonio Carlos Pastorino, médico pediatra alergista e imunologista.

A recomendação de procurar o pediatra deve ser enfatizada, pois são muitos os aspectos que compõem a tendência à alergia e também o seu diagnóstico, a começar pela genética.

Doutor Pastorino explica que se a criança tem pai ou mãe alérgicos, terá duas vezes mais chance de desenvolver o problema. Quando os dois são alérgicos, a chance quadruplica. Mesmo assim, em uma família em que os pais são alérgicos, durante algum período, a criança pode conviver muito bem com animais. Mas em um dado momento, se apresenta sintomas ao entrar em contato com cães, gatos ou poeira, significa que o pequeno já passou pela fase de sensibilização aos alérgenos (agentes causadores de alergia) e estes já estão provocando sintomas. A partir daí, pode-se desenvolver uma doença alérgica. Ainda assim, os fatores genéticos não isentam uma criança sem histórico familiar de apresentar alergia.

Entenda a tendência à alergia

Trocando em miúdos, a tendência à alergia é obtida pelo equilíbrio ou não do resultado das ‘balanças’ de imunidade que existem no nosso organismo: “uma delas se refere às células que conferem imunidade e a outra que deixa o organismo suscetível a desenvolver alergia. Há ainda a ´balança´ reguladora, que confere tolerância aos possíveis alérgenos. Ao nascer, e mesmo dentro do útero materno, o bebê tem uma tendência à alergia, mas que vai se modificando aos poucos, à medida em que a criança entra em contato com o mundo fora do útero em que enfrenta vírus, fungos e bactérias. Aos poucos, esses ‘vilões’ promovem um equilíbrio entre as balanças. Assim ocorre com a maioria das crianças, que se torna normal”, detalha doutor Pastorino.

Mas, no decorrer da vida, essas balanças continuam variando conforme a idade, exposição aos agentes alérgicos, quantidade e tempo de exposição e à influência dos fatores genéticos e ambientais como a poluição.

No ambulatório de Imunologia do Instituto da Criança, doutor Pastorino atende cerca de 300 pacientes asmáticos graves. Do total, 95% tem rinite como doença associada. Ao aplicar o teste de alergia nessas crianças foi detectado que 90% delas tinham alergia aos ácaros, bichinhos com os quais convivemos diariamente no colchão, travesseiro, na escola, carpete etc. Menos de 10% apresentou alergia aos gatos e cachorros.

Lado B: doenças transmitidas pelos animais

A presença do animal em casa pode fazer com que as crianças aumentem as células que induzem imunidade. Mas, há ideias contrárias que defendem que há maior chance das crianças desenvolverem alergia quando entram em contato com os animais. “Pode acontecer sim, porque o pelo é alérgeno”, pondera doutor Takanori. Essa “faca de dois gumes” é reflexo da complexidade que compõe os quadros e diagnósticos de alergia. Por isso, antes de introduzir o bichano à família, vale atentar à reflexão proposta pelo infectologista. “Primeiramente, é preciso observar o histórico familiar. Se há muitos casos de alergia na família, é melhor evitar a presença dos animais. Ou então, para diminuir o risco, adquira o animal já no primeiro ano de idade da criança. Se o bichano chegar depois do primeiro aniversário, a chance de desenvolver alergia é maior. Nessa fase, o pequeno se arrasta no chão, põe a mão na boca, comportamentos que podem ser suficientes para estimular a imunidade. Então, se a criança não entrar em contato com os agentes infecciosos provenientes do animal, o mascote fará parte do grupo que pode causar alergia”, argumenta doutor Takanori.

Além dos riscos que dizem respeito aos quadros alérgicos, os animais podem transmitir bicho geográfico, piolho e micoses. Os especialistas alertam para um cuidado especial quando o peludo escolhido for o gato. “Implicamos com o pelo, mas, na verdade é a saliva dele que tem uma proteína mais alergênica, assim como a própria urina e pelos. Mas como ele se lambe com frequência, essa substância se espalha facilmente por todo o corpo”, detalha doutor Pastorino.

Os fatores alérgenos presentes nos felinos resistem até seis meses no ambiente. Esse dado chama atenção para um alerta importante: não é necessário ter gatos em casa para desenvolver alergia. Ao visitar alguém que tenha um bichano de estimação, quando voltamos para casa, podemos carregar as substâncias conosco e elas permanecem ativas.

Conheça algumas doenças que eventualmente podem ocorrer em contato com os animais, sobretudo, se a criança estiver com baixa imunidade.

Doença Causa/transmissão Sintomas
Arranhadura de gato É causada por uma bactéria que vive normalmente na boca de animais, principalmente de felinos, e que podem ser transmitidas por arranhadura ou lambida sobre uma pele machucada. Caracteriza-se por um aumento de gânglio (íngua) perto da região por onde entrou a bactéria, com ou sem febre. Em crianças o gânglio acometido pode ser aquele que fica perto da orelha (pré-auricular), ou do pescoço.
Toxoplasmose Doença transmitida pelas fezes de felinos ou pela ingestão de carnes mal passadas. “As grávidas podem passar o agente para o feto causando a doença, que é congênita. Por isso, é importante fazer o teste de sorologia durante a gravidez para que, diante de um resultado positivo, o médico possa agir e proteger o feto”, alerta doutor Takanori. Pode evoluir com febre, mal estar, dores musculares, com evolução, às vezes prolongada, de muitos dias. A febre pode vir acompanhada do aumento de gânglios no pescoço. Mas, pode acontecer de o paciente não apresentar nenhum sintoma, por isso, muita gente se surpreende com o resultado positivo ao fazer o exame.
Psitacose A bactéria é transmitida por pássaros, por meio das fezes ou das secreções, sobretudo, durante a higienização de gaiolas. Caracteriza-se por apresentar tosse seca e irritante, de longa duração, às vezes, por mais de mês, acompanhada ou não de febre e que pode evoluir para pneumonia.
Doenças causadas por giárdia e salmonela A Giardia é um protozoário (parente de ameba) e a Salmonela é uma bactéria. Ambos vivem no intestino de praticamente todos os animais e são eliminadas pelas fezes. Ao entrarem em contato com estes animais e levarem a mão à boca, as pessoas podem se contaminar. Trata-se das principais causas de diarreia causada pelo contato com animais.
Toxacaríase É causada por um verme (o toxocara) que a criança pode contrair também em contato com as fezes dos gatos ou cachorros. Existem dois tipos: a chamada Larva Migrans Cutânea (bicho geográfico) e a Larva Migrans Visceral. Na forma cutânea, a larva causa sintomas locais: tuneis na pele que coçam bastante. A forma visceral é mais grave, pois a larva penetra no organismo e causa tosse, chiado, febre e danos oculares.

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