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Todos contra o cigarro


da redação

Cerca de 80% dos fumantes se tornam dependentes do tabaco antes dos 18 anos, por isso, o tabagismo é considerado uma doença pediátrica. A prevenção é um dever da família e da escola

Na maior parte do tempo, ele está no mesmo ambiente dos jovens. Seja em festas e outros momentos de lazer ou até mesmo na universidade, as campanhas publicitárias da indústria do cigarro atuam fortemente com um discurso que, na prática, prega liberdade de expressão e de escolhas, virilidade, poder e sucesso.  Entretanto, o que ocorre na realidade é justamente o inverso.

O consumo, que pode começar despretensiosamente, com o tempo, causa dependência. As consequências são impiedosas e comprometem a saúde bucal, o desempenho sexual, circulação, causando doenças cardiovasculares, o sistema respiratório, aumentando a incidência de enfisema, asma e bronquite. Sem contar os problemas sociais como baixa produtividade e empregabilidade, já que um candidato não fumante pode ter vantagens diante de um fumante em uma possível contratação. Isso porque o indivíduo que não fuma tende a ser mais produtivo e com menor ocorrência de faltas ao trabalho.

A indústria do tabaco é obrigada a comunicar os riscos nas embalagens dos produtos, mas o adolescente não reconhece os riscos. Ao contrário: reconhece o cigarro como instrumento de reinvindicação e de opinião, que o tornará pertencente a um grupo. Por isso é presa fácil dessa indústria, que foca na infância e adolescência como massa de controle para o tabagismo. As estatísticas reforçam esse enquadramento: 75% dos fumantes se tornam dependentes antes dos 18 anos. Muitos são afetados aos 12 ou 13 anos e somente 5% começam a fumar depois dos 25. Por isso, o tabagismo é tratado na Medicina como doença pediátrica.

Com a chegada do narguilé, a iniciação se dá ainda mais precocemente. De origem árabe, trata-se de uma espécie de cachimbo para fumar tabaco aromatizado. E justamente por dar sabor ao fumo, é mais atrativo para os jovens, que levam o narguilé como companhia nas festas. Muitos nem param para pensar ou, o que é pior, desconhecem, o efeito nocivo que pode causar, já que uma hora de uso de narguilé equivale a 100 cigarros utilizados. Por ser altamente aditivo, o Instituto Nacional do Câncer (INCA), escolheu o narguilé como mote da campanha mundial do combate ao tabagismo de 2015. Isso porque os jovens não estão avisados sobre os efeitos do produto.

Como o cigarro age no organismo?

Apenas 19 segundos são suficientes para que a nicotina chegue ao cérebro após a tragada. Em baixas dosagens a substância facilita o relaxamento, causa euforia média, pode aumentar a atenção e a habilidade para resolver problemas. Ao chegar ao cérebro, o cigarro causa mudanças em vários químicos: níveis de dopamina se elevam, causando prazer. A performance de memória também aumenta naquele instante, mas, depois cai bruscamente. Aí está uma das atuações do vício, já que, mesmo que inconscientemente, o indivíduo tende a recorrer ao cigarro sempre que exercer atividade que demande esforço intelectual.

Aumentam também os índices de hormônios controladores do stress, prazer e bem-estar, como a endorfina. Isso pode causar redução de apetite, fazendo com que o indivíduo não ganhe peso. Por isso, ao parar de fumar, a prática de exercício é recomendada para repor a capacidade do corpo de repor sozinho as endorfinas.

Medidas preventivas

Os pais devem estar cientes de que educam por meio do exemplo e que, portanto, quando fumam, perdem a credibilidade ao chamar a atenção do filho em relação aos riscos do cigarro.

O papel da escola também tem sido fundamental não apenas para instruir corretamente as crianças, mas para que elas incentivem seus pais a pararem com o vício.

Nesse sentido, inciativas como o Programa do Dr. Bartô – Prevenção de Drogas Lícitas no Ensino Fundamental e Médio (www.drbarto.com.br) fortalecem ainda mais o papel social da escola frente à questão do tabagismo. Desde 2008, doutor João Paulo Becker Lotufo, ou Dr. Bartô, como é chamado artisticamente, visitou cerca de 200 salas de aula com intervenções teatrais, livretos, palestras, concursos de redação etc com o único objetivo de disseminar conhecimento e promover o engajamento dos jovens contra o cigarro.

O projeto de prevenção de drogas no Ensino Fundamental e Médio aumentou a discussão do assunto de drogas lícitas nas famílias em 60%. Após a intervenção educativa de Dr. Bartô e os Doutores da Saúde constatou-se também 30% de abandono do cigarro e 29% de abandono do álcool em alguém da família.

Além do trabalho nas escolas, o médico coordena o Projeto Antitabágico no Hospital Universitário da USP, em que, durante a consulta de triagem, os residentes conduzem um aconselhamento breve de prevenção contra as drogas e verificam o risco nas famílias abordadas.

Fontes consultadas

Dr. João Paulo Becker Lotufo é coordenador do Projeto Antitabágico 
do HU/USP e
Representa o assunto drogas na Sociedade Brasileira de Pediatria.e Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Nise Yamaguchi é médica oncologista e imunologista. Trabalha na World Prevention Alliance, com sede em Lyon, na França e integrante de comitês antitabagismo da Sociedade Internacional de Câncer de Pulmão

Outras fontes:

Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) – Organização Não-Governamental voltada à promoção de ações para a diminuição do impacto sanitário, social, ambiental e econômico gerado pela produção, consumo e exposição à fumaça do tabaco.

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