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Muito além do espírito de Natal


Por Pilar Lecussan Gutierrez

Brincar de Papai Noel é um ritual seguido por muitas famílias e envolve adultos e crianças. Mas o começo e o fim desse jogo deve ser delimitado pelos próprios pequenos

Fui convidada como especialista em mentes de crianças e pais para falar sobre o Papai Noel. Estranho? Não, se pensarmos que hoje em dia precisamos de especialistas para todos os aspectos de nossa vida, por mais corriqueiros que possam parecer: comer, correr, brincar, dormir, divertir-se, arrumar (ou desarrumar) armários, escolher roupas, fazer malas, viajar, festejar, gestar, criar filhos, fazer amigos etc. Não queremos correr riscos. Como se houvesse vida sem riscos.

O resultado, mais evidente, dessa busca por “especialistas” parece ser uma longa rota de fuga que construímos para escapar de tudo o que nos parece complicado, trabalhoso, doloroso.  A procura da satisfação total e imediata, e a incômoda sensação de não estar atuando de maneira correta, de não estar usando tudo o que se tem direito, de não estar sendo tão magro e feliz como se deveria, parecem ser “resolvidas” pela busca do profissional adequado. Abrimos mão, facilmente, de nos aproximar do que nos preocupa e aflige por acreditar (e desejar) que exista uma resposta perfeita e rápida em algum lugar que sirva para todos nós.

Terceirizar nossa vida é a palavra de ordem. Alguém sabe fazer melhor do que eu – basta procurar o especialista adequado (e pagar) para cada dificuldade e, então, seremos felizes.  Não fazemos de maneira  diferente com nossas crianças e as questões que elas nos apresentam.

Feito esse reparo, volto ao convite que recebi. Não gostaria de contribuir com mais uma fala de especialista (muitos especialistas em Papai Noel falarão nestes próximos dias), mas, o convite me levou a pensar em alguns temas que aqui identificados podem provocar uma reflexão e que, certamente, têm a ver com o tempo que vivi ouvindo (e acompanhando) pais e crianças.

O Papai Noel, o Natal, assim como as lendas, os mitos, as histórias infantis, os costumes e as festas, são fenômenos da cultura e devem ser vividos como tal. Embora um tanto desgastado pelo aspecto comercial (que também tem a ver com a cultura) o Papai Noel é um personagem que simboliza aspectos, valores, particularidades de uma sociedade, globalizada e atravessada pela palavra de ordem: consumir. Por outro lado, não deixa de ser um ritual. Os rituais dão sentido a acontecimentos humanos importantes e oferecem recursos para seu enfrentamento. Natal, Papai Noel e presentes fazem parte dos rituais desta época de nosso calendário. Por mais desgastados e distantes de seus significados originais e sem conteúdo que possam parecer, continuam fornecendo referências para uma importante parte de nós, ocidentais (cristãos, não cristãos, ateus etc)

Brincar de Papai Noel é um ritual seguido por muitas famílias e se apresenta como um jogo. Deste jogo participam crianças e adultos que estabelecem suas regras (cada família tem as suas) e que dura enquanto ambos estão interessados. O fim deste jogo deve levar em conta os envolvidos, adultos e crianças.

Aqui entram algumas considerações que me parecem interessantes de se pensar. Cada família tem seus costumes e hábitos que, provavelmente, se inserem em uma história que existe antes de cada membro. E isso também se aplica às suas crianças. E aqui surge o que um aspecto menos reconhecido, mas, mais importante de se conhecer: o lugar que a criança ocupa em sua família.

Há pequenos considerados “café com leite”, “mais ou menos gente” e não importantes para serem consideradas (um dia serão adultos). Outras são vistas como seres “frágeis” que devem ser “protegidos” de assuntos “complicados”, (para os adultos, sobretudo) como a morte e o sexo, a vida e suas vicissitudes, algumas são consideradas sujeitos, em transformação, mas que devem ser respeitados e levados em conta de acordo com suas possibilidades e momento de desenvolvimento. Esta me parece a melhor opção.

 

Quando as crianças são respeitadas e consideradas na família como sujeitos singulares, mas, dignos de consideração, questões como quando contar ou não “as verdades da vida” são administradas dentro do cotidiano de sua criação.

Nesta perspectiva, perguntas como “quando, como e quem vai contar a verdade” são respondidas pela própria criança. Ela pergunta quando quer saber (o que nos dá a medida de prontidão) e escolhe a quem perguntar (dirige suas perguntas a alguém). A maneira de se contar deve ser a mais próxima da habitual e a extensão das informações deve estar em sintonia com a sinalizada pela criança.

Este roteiro não é específico para o Papai Noel. Na verdade, ele é consequência do que, considero, mais importante neste tema: o respeito à criança e à disponibilidade dos adultos em ouvir suas demandas e levá-las em conta.

Cada família tem seus costumes e rituais, sua maneira de se comunicar com suas crianças. Não há receitas para que “tudo dê certo ou para que fiquemos satisfeitos e não corramos riscos”. O que vale é a disponibilidade para fazer o melhor, tentar, avaliar resultados, ajustando o passível de ser ajustado, acertando e errando e, sobretudo, não se mostrando surdo ao que a criança fala ou mentindo para ela. Ninguém sabe mais ou melhor de suas crianças do que suas próprias famílias.

Espero ter provocado algumas dúvidas e interesse em encaminhá-las, não só quanto ao Papai Noel.

Bom Natal!

* Pilar Lecussan Gutierrez é psiquiatra infantil, membro das comissões de Ética Médica e Bioética. Trabalha no ICr  acompanhando crianças e adolescentes com doenças crônicas e suas famílias.

 

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