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Abaixo à superproteção antibactérias

| 14.03.2014

Por Alfio Rossi Jr.*

Para o banho da criança ou higienização de ambientes, use apenas água e sabonete comum. Produtos antibacterianos devem ser administrados apenas com orientação médica

Brincar na areia, rolar pelo chão, correr descalço. Tudo isso tem cara de infância e parece que é mais gostoso de quando criança, né? Mas depois, quando o filho chega ofegante, suado e com indícios que denunciam a brincadeira, alguns pais recorrem a produtos antibacterianos como quem reúne esforços no time para a higiene da criança.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, quando se trata de indivíduos saudáveis, bactericidas, em geral, incluindo os de limpeza doméstica ou desinfetantes antissépticos, não trazem benefício algum.

Isso porque, em todos os ambientes, existe a flora ambiental, que é composta por bactérias que não causam doenças. Pelo contrário, elas exercem um papel fundamental no estímulo à imunidade. O contato com essas bactérias que não transmitem doenças vão ajudando o Sistema Imunológico a se desenvolver, principalmente nos primeiros três anos de vida.

Nesse sentido, água e sabão são suficientes para higienizar qualquer ambiente doméstico. Há até uma contraindicação mais rigorosa, um risco em potencial: ao utilizar produtos antibacterianos, você elimina as bactérias que compõem essa flora ambiental, pois essas bactérias são mais fáceis de ser afetadas por eles. Assim, você propicia que tenha espaço ecológico para bactérias mais agressivas se desenvolverem e se instalarem no local.

Mesmo as famílias com animais de estimação devem recorrer a produtos convencionais. Apenas é indicado redobrar o cuidado com a limpeza e realizá-la com mais frequência para evitar acúmulos de dejetos animais e, consequentemente, o contato das crianças com essas substâncias nocivas.

Brincadeira de criança

Pais superprotetores tendem a privar seus filhos do contato com o chão com receio de que alguma sujeira vá parar na boca do bebê. E eles colocam mesmo! Mas se o ambiente doméstico for comum, sem fezes nem urina de animais, eles terão contato com uma flora bacteriana que não é patogênica. O risco potencial de contaminação existe apenas diante de ambientes que possam estar contaminados com excreções humanas ou de animais.

Se a chupeta cair na calçada pode haver excreções e até incidência de esgoto, então, deve-se lavar. Mas na sala de casa, no quarto da criança, haverá apenas a poeira normal de todo dia. E a maior parte das bactérias e fungos contidos nela, quando caírem no estômago, serão inativadas pelo ácido que o órgão contém.

Então, brincadeiras na grama, na areia ou no chão de casa estão mais do que liberadas! Elas favorecem não apenas o desenvolvimento social como também do sistema de defesas do organismo.

Hora do banho

Ao dar banho na criança, o que se pretende é remover as sujeiras visíveis e uma camada bem superficial de bactérias, a chamada flora transitória, bactérias fracamente aderidas à pele, removíveis facilmente com qualquer sabonete.

A pele do ser humano possui uma flora chamada residente, cujas bactérias fazem parte do nosso extrato cutâneo. Elas moram na nossa pele, não causam doenças. Ao contrario, ajudam a manter o pH da pele, a degradar gordura e preservar  a saúde da pele. Ao usar produtos antibacterianos ou exagerar na limpeza, esfregando com a bucha, elas podem remover a flora residente, o que não é indicado. Então, o exagero na tentativa de higienizar, pode machucar a pele e abrir portas de entrada, que favoreçam infecção. Por outro lado, ao remover a flora residente, o indivíduo propicia que outras bactérias ocupem esse espaço. Da mesma forma que ocorre no ambiente, pode ocorrer na pele.

Por esses motivos, há quem se refira à sujeira que a criança entra em contato como “Vitamina S, de sujeira”. Nesse sentido, a máxima “se sujar faz bem” também é verdadeira, pois a vitamina S ajuda a criança a desenvolver as defesas do organismo. Como são bactérias que não fazem parte da nossa flora, o organismo interpreta como invasão, mas de pouco potencial de causar doença, pois são pouco agressivas. Mas o nosso organismo não sabe disso num primeiro momento, então, para se defender inicia a produção de anticorpos.

Então, se a mãe priva muito seus filhos de contato com bactérias externas, o organismo não tem a oportunidade de reagir a elas e não começa a formar uma barreira imunológica. Crianças que são submetidas a uma condição mais liberal, ao atingirem os três anos de idade, tendem a contrair menos doenças, pois terão o Sistema Imune mais fortalecido.

*Dr. Alfio Rossi Junior é mestre em Medicina (Pediatria) pela Universidade de São Paulo e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP

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